sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A Censura na Crença


Sempre foi um jornal onde imperou a censura, por vezes interna, agora pelos vistos externa.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Ilhéu de Vila Franca

Informação desatualizada

O ilhéu de Vila Franca do Campo já não é Reserva Natural desde 2008. Desde julho daquele ano é Área Protegida para a Gestão de Habitats ou Espécies.

Ninguém reparou ?

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O Dr. Guilherme Poças Falcão e o São João na Lagoa do Congro


O Dr. Guilherme Poças Falcão e o São João na Lagoa do Congro

Até à presente data não encontrei nenhum documento que me ajudasse a datar o início da tradição de comemorar o dia de São João, 24 de junho, nas margens da Lagoa do Congro, o mesmo se passando com a data em que a mesma terminou, nem as razões para que tal acontecesse.

Enquanto não encontrar prova em contrário, penso que o São João na Lagoa do Congro só terá começado depois de José do Canto ter comprado, em 1853, 9 moios de terra onde estava implantada a Lagoa do Congro, aberto vários caminhos, construído as casas e criado a sua mata ajardinada, com a ajuda do jardineiro inglês George Brown.

Em relação às casas, nos primeiros meses de 1855, foram postos vidros nas janelas, foi lajeado o seu interior e retelhadas, tendo José do Canto e a família passado alguns dias lá no verão daquele ano.

Sabe-se também que os caminhos abertos por José do Canto para além de se destinarem às plantações e à criação de pastos, também eram usados para proporcionar passeios aos seus familiares e visitantes.

Em toda a bibliografia consultada o nome que aparece associado às festas de São João na Lagoa do Congro é o do seu proprietário Guilherme de Poças Falcão (1855-1942) que sempre autorizou a utilização do espaço por parte dos vila-franquenses e de vários habitantes da costa norte que para lá convergiam a 24 de junho de cada ano.

Guilherme de Poças Falcão, natural de Ponta Delgada, formou-se em direito na Universidade de Coimbra, tendo sido advogado e exercido funções de oficial do Governo Civil do distrito de Ponta Delgada.

Para além da sua generosidade para com os vila-franquenses, o Dr. Guilherme de Poças Falcão distinguiu-se por ser sócio benemérito da Sociedade Afonso Chaves, apoiar diversas instituições de caridade bem como ajudar muitos estudantes pobres a prosseguir os seus estudos e a proteger viúvas e órfãos, de tal modo que o seu falecimento foi sentido em toda a ilha de São Miguel.

A propriedade da Lagoa do Congro, que não incluía a Lagoa dos Nenúfares que pertencia ao Conde Botelho, foi herdada pela filha de José do Canto Maria Guilhermina que era casada com o Dr. Guilherme de Poças Falcão que numa visita à mesma pensou recuperar a casa para servir de recreio.

Tudo levar a crer que terá sido no tempo Dr. Guilherme de Poças Falcão, que por vezes também participava, que começaram as festividades de São João na Lagoa do Congro. Sobre este assunto o professor José Cabral, num depoimento publicado no livro “São João da Vila”, de Eduardo Furtado, mencionou o seguinte: …Assim juntavam-se famílias que iam para a Lagoa do Congro, quando era ainda propriedade do Dr. Guilherme Poças Falcão. Toda a zona era um relvado bem cuidado onde se organizavam balhos populares e onde as pessoas se divertiam de manhã à noite”.

Terão sido alguns dos herdeiros do Dr. Guilherme de Poças Falcão, que não seguiram o seu generoso exemplo, e que pela proibição do acesso à propriedade levaram a que o São João na Lagoa do Congro terminasse.

Sobre o fim daquela salutar prática, Manuel Inácio de Melo, num texto publicado no jornal “A Vila”, em 1969, depois de escrever que ainda estava “aberta uma dívida a pagar a esse Bom Homem que foi o Sr. Dr. Guilherme Poças Falcão”, acrescentou:

“Repito, pois, Santos tempos aqueles em que se contam às dezenas as raparigas que balhavam sem haver rogos, trajando vestes garridas e chapéus de palha do nosso trigo com flores campestres. E ficamos por aqui, faleceram aqueles ricos proprietários e tudo morreu na Borda da Lagoa, que passou de um extremo a outro!”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31955, 16 de outubro de 2019, p.14)

sábado, 17 de agosto de 2019

ILHÉU DE VILA FRANCA- RESERVA OU MONUMENTO NATURAL?


ILHÉU DE VILA FRANCA- RESERVA OU MONUMENTO NATURAL?


O ilhéu de Vila Franca, o mais formoso ilhéu que há nas ilhas, no dizer de Gaspar Frutuoso, possui uma superfície de 61 640 m2 e fica situado em frente a Vila Franca do Campo, a sensivelmente 480 m da Ponta de São Pedro e a 1200 m do cais do Tagarete.

O ilhéu de Vila Franca é um cone vulcânico, resultante de uma erupção submarina em águas pouco profundas, constituído por tufos basálticos de cor amarelada ou acastanhada, e a bacia não é mais do que a cratera desse cone. De acordo com Forjaz (l988), o ilhéu de Vila Franca ter-se-á formado há cerca de 3000 anos.

A flora do ilhéu de Vila Franca apresenta várias espécies exóticas, sobretudo de origem africana e americana, entre elas podemos encontrar. a cana (Arundo donax), o incenso (Pittosporum undulatum), a tabúa (Phormium tenax), a piteira (Agave americana), o metrosidero (Metrosidero tomentosa), a vinha (Vitis labrusca e Vitis vinifera) e a lantana (Lantana camara), mas, ainda, conserva algumas espécies endémicas, como a urze (Erica azorica), a erva-leiteira (Euphorbia azorica), a figueira- brava (Senecio malvifolius), o louro (Laurus azorica), a canica (Holcus rigidus) e a Spergularia azorica, esta última integra a lista de Plantas Vasculares dos Açores em Perigo de Extinção, publicada em l984 por Erik Sjogren.

O ilhéu do ponto de vista faunístico apresenta uma grande variedade de aves, entre as quais destacamos: o pombo-da-rocha (Columba livia), o milhafre (Buteo buteo rothcildi),o estorninho (Sturnus vulgaris granti), o melro-negro (Turdus merula azorensis), a gaivota (Larus argentatus atlantis), o garajau comum (Sterna hirundo), o garajau rosado (Sterna dougallii), o cagarro (Calonectris diomedea borealis), o vira-pedras (Arenaria interpres) e a seixoeira (Calidris canutus).


Das aves marinhas, tudo leva a crer que apenas o cagarro é nidificante. Este é uma espécie que, embora não ameaçada, aparentemente encontra-se em regressão devido à destruição e degradação do habitat de nidificação nos Açores, região onde se encontra a maior concentração mundial de cagarros. De acordo com Hamer (l990), o Ilhéu de Vila Franca é excepcional no que toca à densidade e acessibilidade dos ninhos presentes e à diversidade de habitats usados para a sua localização.

Dado o grande interesse natural e paisagístico e em virtude do seu fácil e indiscriminado acesso e uso, tornando-o muito vulnerável, foi considerado por Decreto Legislativo Regional nº. 3/83/A, de 3 de Março, Reserva Natural.

O ilhéu de Vila Franca, tal como as restantes áreas protegidas dos Açores, com a publicação do Decreto Legislativo Regional nº 21/93/A de 23 de Dezembro, aguarda a sua reclassificação.

Na sequência da minha participação, como representante dos Amigos dos Açores, numa reunião promovida pela Direcção Regional do Ambiente, na cidade da Horta, em 30 de Outubro de 2001, e após a análise de uma Proposta de Plano de Ordenamento e Gestão do Ilhéu de Vila Franca do Campo, da responsabilidade da Secção Autónoma de Arquitectura Paisagística do Instituto Superior de Agronomia, venho, publicamente, manifestar algumas reservas quanto a uma eventual “desclassificação” daquela área protegida, transformando-a em Monumento Natural.

Por outro lado, para que se mantenha o actual estatuto de Reserva Natural é importante minimizar um dos principais problemas com que se debate o ilhéu, se não mesmo o maior, que é a elevada pressão humana durante a época balnear, a qual entra em conflito com o objectivo primeiro de uma Reserva que é a conservação da natureza. Assim, achamos que é urgente condicionar a presença humana fora da zona balnear e limitar o número de visitantes nesta, pois só assim se poderá oferecer um recreio de qualidade.

(Publicado no Açoriano Oriental, 11 de Março de 2002)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

PELA NÃO CONSTRUÇÃO DE UM HOTEL DE 568 CAMAS NA PRAIA DO DEGREDO EM VILA FRANCA DO CAMPO


PELA NÃO CONSTRUÇÃO DE UM HOTEL DE 568 CAMAS NA PRAIA DO DEGREDO EM VILA FRANCA DO CAMPO

Para: Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores
Em Junho de 2018, foi autorizada - através da Resolução do Conselho do Governo nº 76/2018 de 21 de Junho de 2018 - a construção de um hotel, com uma capacidade prevista de 568 camas, junto à Praia do Degredo, na freguesia de Água d’ Alto, concelho de Vila Franca do Campo.

Tal construção só é possível, porque o Decreto Legislativo Regional nº 13/2010/A suspendeu, parcialmente, o Plano de Ordenamento Turístico da Região Autónoma dos Açores (POTRAA) de 2008.

Esta suspensão permite que, na ilha de São Miguel, possa ser autorizada a construção de novos hotéis, com mais de 150 camas, mediante resolução do Governo Regional (renegando, assim, o referido Plano).

Considerando que este projecto, pela sua dimensão e localização não se adequa à realidade da ilha de São Miguel, porque:

1. O impacto ambiental da sua construção e operação numa zona costeira e sensível será demasiado para ser aceite.

2. Atenta contra a sustentabilidade do sector do turismo ao apostar na sua massificação, algo que todos os responsáveis políticos e empresariais, hoje dizem não querer, mas que ainda assim, cada vez mais se torna a realidade de São Miguel.

3. Não fora a Resolução do Governo sobre a suspensão do POTRAA de 2008, e este não permitiria aquela capacidade prevista.

4. Não poderia ser aprovado no âmbito do novo POTRAA, que esteve recentemente em consulta pública.

Os peticionários solicitam à Assembleia Legislativa da Região Autónomas dos Açores e ao Governo da Região Autónoma dos Açores que actuem no sentido de não permitir a construção deste hotel com aquela capacidade, junto à Praia do Degredo.

https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT93664

sábado, 29 de junho de 2019

Os rostos do Estado Novo no seu fim


Correio dos Açores, 26 de setembro de 1973

Um picopedrense em VIla Franca



Desonhecemos as razões, mas não é de hoje as ligações existentes entre Vila Franca do Campo e o Pico da Pedra. No passado havia transumância de gado bovino entre a freguesia do Pico da Pedra e a da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo.

O que agora divulgamos é o caso de um picopedrense que foi acabar os seus dias em Vila Franca do Campo.
Fonte: "Encontro de Gerações", Editorial Ilha Nova, julho de 2004

TB, 30 de junho de 2019

sexta-feira, 14 de junho de 2019

PERCURSO PEDESTRE “PRAIA- LAGOA DO FOGO”


PERCURSO PEDESTRE “PRAIA- LAGOA DO FOGO”

Ponto de Partida e de Chegada- Praia de Água d’Alto

Extensão: 12,5 km

Duração média: 5 h


O percurso tem início junto à ponte da Ribeira da Praia. Desta ponte tem-se uma magnífica vista do lugar da Praia, pequeno povoado que pelas suas características foi considerado “Lugar Classificado”. Nesta localidade, a EDA- Electricidade dos Açores, em sintonia com a Câmara Municipal de Vila Franca e com o objectivo de homenagear o pioneiro da electrificação nos Açores, o Eng. José Cordeiro, recuperou o edifício da central conhecida por “Fábrica da Praia”, transformando-a em Museu.

O segundo posto localiza-se junto às ruinas de uma antiga fábrica de desfibração de espadana. A espadana ou linho da Nova Zelândia, também conhecida por tabua (Phormium tenax), é uma planta oriunda da Nova Zelândia que foi introduzida em S.Miguel, em 1828, por Francisco Lopes Amorim.. Porém, a sua exploração industrial ter-se-á iniciado depois de 1880, ano em que José Bensaúde e José Jácome Correia adquiriram uma máquina para a sua desfibração e a instalaram em Ponta Delgada.

O terceiro ponto de paragem, localiza-se junto a uma pequena barragem e na origem do canal de derivação da central Nova. Esta central começou a produzir em 1927 com uma potência de “ 600 cavalos, aproveitando um caudal de 300 litros por segundo e uma altura de queda, artificial, de 290 metros”.Neste posto a vegetação é bastante baixa, com predomínio para a urze (Erica azorica) e para a queiró (Calluna vulgaris). Aqui, é possível observarmos algumas aves, como o tentilhão (Fringilla coelebs moreletti), o milhafre (Buteo buteo rothschildi) e a álveola (Motacilla cinerea patriciae).

O último posto localiza-se nas margens da lagoa do Fogo, uma das mais belas lagoas açorianas. A lagoa do Fogo, situada à altitude de cerca de 610 metros, ocupa o fundo da caldeira do Vulcão de Água de Pau, a qual possui 3 km de diâmetro e 100 a 300 m de profundidade e foi formada há cerca de 15 mil anos. A actual configuração da caldeira terá surgido há cerca de 5 mil anos e a última erupção ocorreu em 1563.

A Lagoa do Fogo possui uma área aproximada de 1,5 km2 e uma profundidade máxima de 30 metros, sendo o seu comprimento máximo de 2,4 km e a largura máxima de 1,2 km.Nas suas águas vivem, entre outras, as seguintes espécies piscícolas: a carpa(Cyprinos carpio) e a truta arco-íris(Salmo irideos), esta última introduzida pela primeira vez, em 1941, pela Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada.

Teófilo Braga
Terra Nostra, 275, 9 de dezembro de 2005

quarta-feira, 12 de junho de 2019

A propósito da Erva-das-lamparinas


A propósito da Erva-das-lamparinas

Depois de alguns anos à procura, finalmente encontrei no passado dia 2 de junho uma quinta onde o seu proprietário possui uma pequena plantação de erva-das-lamparinas ou erva-dos-pavios.

Desde muito pequeno conheço a planta que era cultivada por uma tia minha, Diamantina de Braga, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo. Há cerca de seis anos, voltei a encontrar a planta na Ribeira das Tainhas na casa de uma pessoa conhecida que me prometeu oferecer-me um pé quando chegasse a altura boa para as plantações.

Como a pessoa, entretanto, faleceu recorri à minha prima Teresinha Braga que morava na casa que outrora tinha pertencido à minha tia e a resposta foi a de que a erva teria desaparecido.

O outro contato com a planta deu-se em casa dos meus avós Manuel Soares e Maria dos Santos Verdadeiro que desde 1956 recebiam no dia 28 de cada mês a Sagrada Família. Para iluminar o quarto onde estava o nicho com a Sagrada Família, eram usados como pavios numa lamparina de azeite, os cálices da erva-das-lamparinas, depois de secos.

Este ano, depois da visita referida, comecei a investigação acerca do nome da planta ou plantas usadas como pavios, a sua origem e para que outros fins pode ser utilizada..

A primeira conclusão a que cheguei é a de que são usadas como pavio, mais do que uma espécie do género Ballota, nomeadamente a Ballota nigra que existe na Europa, no Sudoeste da Ásia e na Região Mediterrânica e terá sido introduzida nos Açores e a Ballota hirsuta que também existe na Região Mediterrânica e foi introduzida nos Açores.

Nos Açores, existe uma subespécie da Ballota nigra, a Ballota nigra subsp. uncinata cuja presença já é referida por Ruy Telles Palhinha no seu Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores, publicado em 1966 pela Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves.

A Ballota nigra, que pertence à família das Lamiaceae é conhecida cá pelo nome de marroio-negro, é usada para fins medicinais em vários locais do mundo e também nos Açores.

Yolanda Corsepius, no seu livro Plantas Medicinais dos Açores, editado em 1997, escreve que esta planta, que naturalmente pode ser encontrada junto a muros e sebes, tem as seguintes propriedades e indicações: “calmante-insónias, nervosismo; antiespasmódica; colerética.”

Maria Manuela Magalhães da Silva, num trabalho de fim de curso, apresentado na Universidade dos Açores em 1992, por seu lado escreve que o marroio-negro nos Açores para além de cultivado pode ser encontrado em depósitos pedregosos.

Quanto ao seu uso, Maria Manuela Silva diz que é “calmante nas perturbações de origem nervosa (depressão, enxaqueca, neurastenia, estados ansiosos e outras afeções nervosas ou psíquicas. É também um diaforético. Em aplicações externas, as compressas de marroio aliviam as dores reumatismais”.

Nos Açores. Também, existe o marroio-branco (Marrubium vulgare) que consta da lista das plantas usadas na medicina popular publicada no número 17 do Boletim da Comissão Reguladora dos cerais do Arquipélago dos Açores, relativo ao ano de 1953. De acordo com o autor do trabalho, Silvano Pereira, aquela planta também denominada marrolho aparecia sobretudo “nos matos e incultos”, sendo “a infusão das suas folhas…aconselhada para combater a icterícia”.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores,31850, 13 de junho de 2019, p.16)

sábado, 1 de junho de 2019

Lagoas do Congro e Nenúfares- Monumento Natural


Lagoas do Congro e Nenúfares- Monumento Natural

Em Fevereiro de 2000, os Amigos dos Açores- Associação Ecológica elaborou e remeteu à Direcção Regional do Ambiente uma proposta de Classificação das Lagoas do Congro e dos Nenúfares como Área Protegida. Passados mais de quatro anos, é altura de voltar a insistir para que aquela proposta não caia no esquecimento e, ao mesmo tempo, reafirmar todo o interesse em que, tal como aconteceu recentemente com a Caldeira Velha, aquela zona seja classificada como Monumento Natural.

A Lagoa do Congro deve o seu nome ao facto de, em tempos, ter pertencido, tal como uma vasta área de mato nas suas imediações, a André Gonçalves de Sampaio, “ O Congro”, sendo este cognome explicado por Gaspar Frutuoso da seguinte forma: “por em seu tempo ser o mais rico homem da terra, como dizem ser o congro, entre os peixes que se comem, o maior peixe do mar”. Por seu turno, a Lagoa dos Nenúfares deve o seu nome ao facto de, grande parte da sua extensão, estar coberta por nenúfares (Nymphae alba).

As lagoas do Congro e dos Nenúfares localizam-se no extremo oriental do Complexo Vulcânico do Fogo, a NNE de Vila Franca do Campo.

Sob o ponto de vista geológico, a Lagoa do Congro ocupa uma cratera de explosão do tipo maar, com cerca de 500 m de diâmetro e paredes fortemente entalhadas em basaltos e traquitos. A Lagoa dos Nenúfares, situada a escassos metros a Sudeste da Lagoa do Congro, tem a sua génese associada ao maar da Lagoa do Congro.

Actualmente, em redor das Lagoas do Congro e dos Nenúfares, embora possam ser observadas espécies da vegetação natural dos Açores, tais como o louro (Laurus azorica) o cedro do mato (Juniperus brevfolía) a Lysimachia azorica, predominam as espécies exóticas, como a: criptoméria (Cryptomeria japonica), a hortência (Hydrangea macrophylla), a azálea (Azalia indica), o eucalipto (Eucalyptus globulus), o incenso (Pittosporum undulatum) e a conteira (Hedychium gardneranum).

As espécies vegetais aquáticas mais comuns, para além da Nimphaea alba que é claramente dominante na Lagoa dos Nenúfares, são o Potamogeton polygonifolius e o Scirpus fluitans, para além da presença de Hypericum elodes e do Junco (Juncus efusus).

Dado que esta zona é densamente florestada, é frequente observarem-se diversas espécies de aves, das quais se destacam: a estrelinha (Regulus regulus azoricus), o milhafre (Buteo buteo rothschi¬idi), a alvéola (Motacilla patriciae cinerea) e o pombo torcaz (Columba palumbus azorica), o touto (Sylvia atricapilla), o pato bravo (Anas querquebula) e a garça-real (Ardea cinerea).

Actualmente, na Lagoa do Congro estão referenciadas duas espécies ictiológicas - Cyprinus sp. e Perca fluviatilis (perca do rio) e a rã (Rana perezi). Por seu turno, na Lagoa dos Nenúfares podem encontrar-se peixes vermelhos (Carassius auratus) e duas espécies de anfíbios - o tritão de crista (Triturus cristatus carnifex) e a rã (Rana perezi).

Em virtude da sua localização, o Monumento Natural das Lagoas do Congro e dos Nenúfares poderá funcionar como pólo dinamizador de diversas actividades na área do turismo, com destaque para uma rede de percursos pedestres e/ou equestres que terão como destino as Cumeeiras da Lagoa do Fogo/Pico da Vela, a Lagoa de São Brás, o Castelo/Branco, o Pico da Dona Guiomar/ Lagoinha do Areeiro, etc.

BIBLIOGRAFIA

CONSTÂNCIA, J., BRAGA, T., NUNES, J., MACHADO, E., SILVA,L., (1997). Lagoas e Lagoeiros da Ilha de São Miguel, Amigos dos Açores. Ponta Delgada.
NUNES, J.,(1998). Paisagens Vulcânicas dos Açores, Amigos dos Açores, Ponta Delgada.

Teófilo Braga

(Terra Nostra, 25 de junho de 2004)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Simplício Gago da Câmara e a agricultura micaelense


Simplício Gago da Câmara e a agricultura micaelense

Na semana passada dediquei o texto a Simplício Gago da Câmara, tendo mencionado, entre outros aspetos da sua vida, o seu contributo para a reflorestação da ilha de São Miguel. Neste texto, darei a conhecer o seu contributo para o desenvolvimento da agricultura.

Vila Franca do Campo foi um concelho com grandes quintas de laranjeiras, tendo a sua apanha sido magistralmente descrita pelos irmãos Joseph e Henry Bullar no seu livro “Um inverno nos Açores e um verão no Vale das Furnas”. Simplício Gago da Câmara foi, segundo Luís Arruda, produtor e exportador de laranja, tendo introduzido em São Miguel “a laranja dita sevilha, a partir de sementes obtidas em Londres”.

Simplício Gago da Câmara não era um mero produtor de laranjas, ou um agricultor passivo. Pelo contrário, tal como estudava muito sobre História Natural também observava com pormenor as plantações e experimentava. Assim, de acordo com um texto publicado no nº 7 d’O Agricultor Micaelense, verificando que possuía uma laranjeira enfezada que não reagia a qualquer tratamento resolveu “decotá-la para que rebentasse com mais força e que, traçando-a a meio do tronco, observara que o âmago estava todo negro, e azougado, o que não tinha dúvida de atribuir ao defeito proveniente da mergulhia”.

Na Gorreana, para além da plantação de matas com pinheiros, giestas e criptomérias, Simplício Gago da Câmara também cultivou chá e iniciou a sua industrialização.

Simplício Gago da Câmara foi produtor de vinho, a partir de videiras que possuía sobretudo no seu prédio do Convento. Para além dos terrenos do Convento, importa referir que depois de adquirir o ilhéu de Vila Franca do Campo, Simplício Gago da Câmara fez plantações de vinhas que perduram até ao século passado.

A criação de gado bovino também foi uma das atividades desenvolvidas por Simplício Gago da Câmara como se pode depreender de uma nota publicada no número dois d’ O Agricultor Micaelense. Com efeito, o autor do texto menciona o cultivo de beterraba que servia de alimento para os porcos, para os bois d’engorda, para as vacas de leite, para todos os animais” e acrescenta que “em Vila Franca o Sr. Simplício Gago está dando há mais de três meses, uma arroba de beterrabas por dia a cada um dos vários bois que prepara para o açougue e outro tanto às suas vacas e porcos, com o que têm medrado a olhos vistos..”

O cultivo do linho também foi experimentado por Simplício Gago da Câmara, como demonstra o relato de uma reunião da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense realizada 11 de dezembro de 1848. Assim, na reunião referida, presidida por José Jácome Correa, aquele expôs “uma amostra de linho com seis palmos de comprido, de semente originária de Riga”.

Simplício Gago da Câmara também se preocupou com o cultivo do trigo e com os trabalhos associados à debulha. Assim, de acordo com um texto publicado n’ O Agricultor Micaelense nº 7, ele introduziu “umas pequenas máquinas de debulhar, portáveis e movidas por dois homens”. Ainda no que diz respeito a maquinaria para aligeirar o trabalho no campo, é atribuída a Simplício Gago da Câmara uma máquina a vapor existente em São Miguel que era multifuncional, pois tanto servia para moer trigo ou milho como para serrar madeira.

Não sabemos se teve concretização, mas Simplício Gago da Câmara projetou a introdução de “um moinho de azeite, movido a vapor, e uma prensa hidráulica para a expressão do óleo”. De acordo com o texto publicado no primeiro número d’ O Agricultor Micaelense, “ a importante introdução a que aludimos será o mais forte incentivo e fomento de uma cultura abandonada entre nós [a produção de sementes oleaginosas] mas de incontestável e reconhecida vantagem entre os estranhos”.



Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31839, 30 de maio de 2019, p 13)

terça-feira, 28 de maio de 2019